King Crab A expansão do caranguejo gigante do Pacífico pelos mares gelados do norte do planeta representa, a um só tempo, um recurso pesqueiro e um enigmático problema ambiental
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Até a década de 60, a natureza manteve estes exóticos seres dentro de seu habitat, as águas ao redor da Península do Kamchatka, o Mar de Okhotsk e as Ilhas Aleutas, no Pacífico, extremo leste da Rússia. Foi quando cientistas russos iniciaram sua adaptação em pontos remotos do país, como uma fonte estratégica de alimento para as comunidades isoladas no norte quase permanentemente gelado da União Soviética.
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Foi uma oportunidade e tanto: os caranguejos gigantes do Pacífico, mais conhecidos por King Crab (Caranguejo Rei), que em sua fase adulta podem ultrapassar os 12 kg, se livraram de seus pouco conhecidos predadores naturais e desde então se disseminam livremente pelas águas geladas do norte do planeta. Em 1974 já haviam contornado o Mar de Barents e descido a costa da Noruega, sendo capturados já no mar do Norte. Eles habitam entre dez e 500 metros de profundidade, são extremamente resistentes a doenças, na fase adulta não tem predadores naturais, podem viver mais de 25 anos e se reproduzem robustamente.
Após um longo périplo pela Noruega, saltando de aviões pequenos para outros menores ainda, cheguei ao extremo norte do país, em Kirkenes (Tchírkenes), fronteira com Murmansk, na Rússia. Na reta final, no curto vôo entre Vardo e Kirkenes, as poucas pessoas no avião de 35 lugares me olhavam com indisfarçável curiosidade. Estabeleceu-se uma rápida brincadeira de tentar adivinhar de onde eu vinha, e claro, ninguém acertou.
Kirkenes é uma bucólica cidade de 3.500. Possui uma das maiores frotas pesqueiras de King Crab, com barcos e tripulações predominantemente russos que formam um mosaico pitoresco de banheiras enferrujadas, ancoradas de Março a Setembro. Neste período, as tripulações reparam as velhas embarcações, preparando-as para a temporada que se inicia em Outubro e vai até fevereiro, durante o inverno no hemisfério norte. Neste período, permanecem semanas em alto mar.
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Na manhã seguinte, me encontrei com Lars Peter, um simpático norueguês mergulhador e dono de uma pequena empresa que leva turistas para safáris de king crabs no Fiorde de Varangerbotn (varrânguer bótn). Como ele captura os caranguejos apenas para servir aos poucos turistas que se aventuram até aquelas paragens, Lars tem permissão para pescar o ano todo. Após nos vestirmos com suítes robustas, quentes e impermeáveis, seguimos num grande bote inflável por uns 10 km de fiorde, até um ponto onde ancoramos ao lado de uma parede rochosa. Anton, o mergulhador russo assistente de Lars Peter, fez uma rápida descida com cilindro de oxigênio, apenas oito metros de profundidade. Cinco minutos depois lá estava ele de volta, trazendo dois caranguejos em cada mão.
“-O fundo do fjord está vermelho”, diz Lars. “- Não é preciso procurá-los. Onde quer que você desça, verá o chão coberto de carapaças se locomovendo umas por cima das outras, caoticamente emaranhadas”.
Mais dois mergulhos e Anton trouxe dez ou doze caranguejos, todos “pequenos”, segundo ele. De volta ao bote, rumamos pro abrigo de Lars, e lá, Anton se pôs a limpá-los. Enquanto os bichos cozinhavam, Lars nos deu uma aula sobre a pesca e a vida do animal.
Para capturar o King Crab usam-se gaiolas retangulares, em cuja lateral há uma abertura estreita e comprida, para onde o caranguejo é atraído por uma isca de peixe no interior da gaiola. Uma vez dentro, pequenas hastes plásticas entrelaçadas na borda da entrada embaraçam-lhe o caminho de volta. As armadilhas são lançadas às milhares entre os 80 e 500 metros de profundidade.
Seu parente sul americano, a Centolla (Genus glyptolithodes), encontrada no Chile e Peru, é uma espécie de king Crab - avantajado se o compararmos aos caranguejos brasileiros, mas perto do Caranguejo Gigante do Pacífico, a Centolla parece um siri. A carne branca e tenra do King Crab, delicada e sutilmente adocicada, é apreciadíssima nos países nórdicos e na Rússia, e também possui forte mercado na Ásia – Japão, Coréia e China consideram-no fina iguaria. Na Ásia, são capturados principalmente no Mar do Kamtchatka e ao redor das Ilhas Sakalinas. Em sua saga migratória, o King Crab também alcançou o Alaska, onde sua pesca é muito bem remunerada, ao mesmo tempo em que é considerada uma das profissões mais perigosas do mundo, pois se desenrola freqüentemente sob terríveis condições climáticas, durante o inverno e com mar revolto.
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Apesar da enorme importância econômica da pesca do caranguejo, o outro lado da moeda é sombrio - sua expansão descontrolada representa muito mais do que o aumento de sua oferta no mercado e mais oportunidades de trabalho – há um grave problema ambiental do qual ainda não se conhece a extensão. Em sua marcha pelo fundo dos mares, o King Crab devora tudo - moluscos, invertebrados, conchas, ouriços, algas e ovas de peixes, oferecendo riscos para um leque ainda incerto de espécies, vítimas da combinação fatal de sua robustez, truculência e apetite insaciável. Um caranguejo adulto pode consumir aproximadamente 400 gramas de alimento diariamente.
Para o caranguejo, a primavera traz a fertilidade. As fêmeas podem pôr entre 30 mil e 500 mil ovos, carregando-os embutidos debaixo de sua placa abdominal durante dez meses. Entre Janeiro e Maio, liberam na água as larvas, surgidas dos ovos nos últimos 15 dias de permanência junto à mãe. Durante as próximas seis semanas, as larvas flutuarão desprotegidas na água, onde a esmagadora maioria será devorada por peixes e invertebrados marinhos. Apenas 2 a 3% das larvas se tornarão caranguejos adultos. Mesmo com este índice aparentemente baixo de sobrevivência, é espantoso o aumento das populações de caranguejos gigantes por onde passam.
A intervenção humana através do manejo desta espécie resultou numa irônica situação: em seu habitat natural, a exploração comercial excessiva e a poluição vinda do Mar do Japão vêm dizimando a espécie, enquanto nas áreas onde o caranguejo foi artificialmente introduzido, vem se tornado um problema ambiental cuja solução ainda está por surgir.
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