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Carlos Páez Vilaró

Artista plástico, poeta, arquiteto, cineasta. Mais difícil que falar sobre este uruguaio de oitenta e seis anos, no entanto magnificamente jovem, é decidir que aspecto de sua vida é mais importante retratar. Um dos últimos seguidores de Picasso que o conheceu em vida, conviveu também com Dalí, De Chirico e Calder. Expedicionário e investigador nato, Vilaró colecionou vivências nos lugares mais insólitos do planeta


Por Elizabeth Freitas






 

 



       Carlos Páez Vilaró nasceu em Montevidéu em 1923. Filho de pai advogado e historiador e mãe ligada às artes, seus pais sempre estiveram envolvidos em questões humanitárias e lutas pela gente do campo no Uruguai. Iniciou sua trajetória no país natal, mas logo se mudou para Buenos Aires onde retratou os bordéis e os cortiços dos bairros “tangueros” da capital portenha. Sempre interessado em transportar para a tela as manifestações culturais populares, viajou ao Brasil onde conheceu e se encantou com a arte afro da Bahia, experiência que o levou a buscar suas origens na África, absorvendo a cultura e a arte de países como Senegal, Libéria, Congo e Nigéria. As massas humanas, os aromas e os matizes dos povos negros e daqueles que herdaram sua cultura, inspiraram e influenciaram a obra de Vilaró ao longo de sua vida de forma contundente.

       Fruto de uma cultura européia transplantada ao Rio de la Plata, com a soma de toda sua aventura cosmopolita em suas viagens pela África, Polinésia, Filipinas, Hong Kong, este choque de culturas e experiências se reflete em sua obra de maneira singular. Por onde passou deixou murais, telas, cerâmicas e esculturas, em lugares que variam desde o muro de um hospital ou de uma escola até o palácio de um sultão. No Brasil deixou entre outras obras a pintura Bar de los Artistas, exposto no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) além de um impressionante mural em bronze no hotel Hilton no centro da capital.

       Em um de seus encontros com Picasso relatado em suas memórias, expressou ao pintor espanhol seu entusiasmo pelo conjunto de obras em cerâmica que havia visitado em seu atelier de Madoura, bem como sua decepção ao constatar que não tinha condições financeiras de adquirir uma de suas peças. Picasso perguntou qual havia sido de sua preferência ao que Vilaró respondeu: “todas”. Imediatamente Dom Pablo, como o chamava, ligou para o seu curador e mandou embrulhar a coleção inteira e enviá-la ao consulado uruguaio de Cannes, como um presente ao pintor uruguaio. Vilaró expôs as obras do mestre em Montevidéu em 1957 e depois as trouxe ao seu atelier de Punta del Este, onde permanecem expostas até hoje.

 


       Em sua ânsia de dar vida às suas pinturas, juntouse à uma expedição francesa pela África captandoimagens cinematográficas para o filme Batouk, mais tarde aclamado no Festival de Cinema de Cannes. Vilaró compareceu na noite de estréia ciceroneado por ninguém menos que Brigitte Bardot. Mais tarde o próprio Astor Piazzolla comporia a trilha sonora de seu próximo filme entitulado Pulsación, rendendo à história da música um tango de uma hora e meia de duração que se estendia por todo o filme. Piazzolla aceitou o convite de Vilaró, que havia descartado Enio Morricone e compôs “Trova” sem conhecer as imagens do filme, como lhe havia solicitado o pintor uruguaio, bem como aceitou o desafio de compor uma obra com total ausência de restrições técnicas. Ao retornar a Paris onde vivia nessa época, depois de uma nova expedição a Nairobi, Vilaró encontrou a obra de Piazzolla escrita para o seu filme com uma mensagem: “obrigado Carlos pela liberdade que você me deu, porque me sinto um novo Piazzolla”.


       Na obra de Vilaró, a inexorabilidade das fórmulas acadêmicas deixa espaço a uma poderosa liberdade que expressa os sentimentos acima de tudo. Admirar sua arte inebria os sentidos e nos enche de uma súbita e inexplicável alegria.

       Sua principal obra é uma gigantesca “escultura habitável” chamada de Casapueblo, hoje uma das atrações turísticas do sofisticado balneário uruguaio de Punta del Este. Em frente à deslumbrante paisagem de Punta Ballena, se ergue entre recifes em frente ao mar a obra que ao mesmo tempo é sua atual residência. Descobrir Casapueblo é uma viagem ao mundo da arte contemporânea e ao mesmo tempo uma aventura inesquecível. Ao entrar nesse democrático e inusitado espaço, o visitante se sente como se uma enorme obra de arte o abraçasse e o convidasse a explorar e descobrir os seus mistérios e suas lembranças. Nela, Vilaró batiza suas varandas, encostas e mirantes com o nome de artistas que ele admira, muitos deles seus amigos que o visitaram, tais como Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Pelé, Eduardo Galeano, Salvador Dalí e Pablo Neruda.

       Humilde, generoso e fiel aos seus princípios, não é difícil encontrar Vilaró recebendo até hoje seus admiradores e convidados em seu atelier de Punta Ballena, repartindo seu sorriso e seu conhecimento com todo aquele que lhe procura, sempre com a mesma hospitalidade calorosa e sem importar-se com a procedência ou a natureza de seu interlocutor. Todas as tardes, no momento exato do pôr-dosol, brinda seu visitante com a reprodução de uma magnífica poesia de sua autoria, escrita ao astro rei. Mergulhado em uma nostálgica melancolia que lhe causa sua partida, Vilaró se despede do sol ao mesmo tempo em que o encoraja a partir e iluminar outras terras e outros povos, agradecendo-o por haver iluminado todas as gerações anteriores.

 

       Entre suas principais exposições públicas destacam-se a reconstrução em 2002 do mural que fez nos anos sessenta na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), com 162 metros de extensão. No mesmo ano também expôs no Cairo e no Palácio da Criatividade, na Alexandria. O Brasil também lhe rendeu prêmios e reconhecimentos, o principal deles durante a 8a Bienal de São Paulo, quando recebeu o Prêmio pela Investigação por sua escultura “Placart”.

       Desta forma, o novo século foi dedicado a muitos compromissos internacionais, realizando retrospectivas na Biblioteca Nacional em Pequim, Cairo Opera House. Também foi convidado pelos governos da China e Egito e fez exposições no Museu de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, Museu de Arte de Tigre, Argentina e na Galeria Bia Doria, em São Paulo.

       Mais do que rótulos sobre técnicas, estilo ou fases diferentes, o que impera na obra de Vilaró é a mensagem. Um profundo amor e respeito à vida, ao ser humano e à tudo o que gira ao seu redor. Sua obra prova que o artista não precisa retratar a realidade tal como ela é, mas como ele a sente e a transforma.

 

   



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